PASTORAL FAMILIAR (DEZEMBRO 2008)

 

Sagrada Família(Transcrevemos abaixo a palestra proferida pelo Cardeal Roger Etchegaray  por ocasião do II Encontro Mundial do Papa com as famílias no Rio de Janeiro em outubro de 1997 – “A Família e a evangelização num mundo secularizado” – 2ª Parte - final)

O Evangelho, desafio para a família.

E assim chegamos à segunda parte do dístico: a família não é só lugar de expressão e transmissão do Evangelho, mas também lugar de interpelação e de provocação pelo Evangelho. O Evangelho não é só a referência que dá à família seu significado último e seu verdadeiro valor, é também essa mensagem do absoluto que anuncia o Reino e obriga a pronunciar o sim ou o não à conversão ao Senhor. A lógica evangélica vai até à impertinência evangélica. É isso que surpreende no Evangelho, a liberdade soberana de Jesus diante dos seus laços familiares. Deixa seus parentes durante três dias na peregrinação ao Templo e se surpreende do próprio espanto deles (cf. Lc 2,50). Quando, em plena pregação, vêm lhe dizer que sua família está à sua espera e o chama, ele responde, incisivo como um fio de navalha: "Quem são minha mãe e meus irmãos?... Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Mc 3,35). E à mulher que admira aquela que o carregou e aleitou, ele replica: "Antes bem aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!" (Lc 11,27). Jesus não contesta a família mas passa a um nível superior, a esse plano último que é o do absoluto de Deus, diante do qual toda realidade humana passa para segundo plano. Destarte é necessário ainda entender esta palavra: "Se alguém vem a mim e não me prefere a seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc 14,26). É o Cristo que funda a escala de valores da família, que faz crescer o amor, o purifica e lhe dá horizontes ilimitados; por esta razão, o amor exclusivo de Cristo, tal como o vivem os homens e as mulheres no celibato pelo Reino dos Céus, é essencial para o êxito cristão das famílias. Trata-se da exigência mais alta, a que dá a um destino de homem e de mulher a coerência evangélica, que não é para corações divididos. Mas ao mesmo tempo, uma vez que é soberano, este apelo evangélico leva a uma purificação em vista a uma expansão dos laços familiares. Não é verdade que um certo modelo familiar arrisca às vezes de fazer do lar um espaço fechado ou não ultrapassa a fronteira das almas? Não acontece de um certo espírito de família afastar de outras famílias? Tal confinamento impede de ir ao aberto onde sopra o Espírito. Mais do que filhos-modelo, quer filhos responsáveis. Mais do que a doçura do lar, requer o desconforto da abertura aos outros. De fato, o Evangelho é para a família um desafio permanente e exigente. A família não será testemunha e instrumento do Evangelho para o mundo senão deixando-se questionar pelo Evangelho. Pelos princípios que a fundamentam, pelos valores que traz, a família cristã é diferente das outras famílias. A diferença está em que é fonte de irradiação de um dinamismo interior, e não tanto de um modelo estabelecido. Ela tem sua fonte no Evangelho e dele tira sua identidade. Pelo Evangelho se renova incessantemente. Nele está a sua verdade e sua nobreza. Nele está a sua vocação e sua missão. "A Família, dom e compromisso, esperança da humanidade". Há dois anos, a Semana Social da França foi consagrada à família com o slogan: "A família, uma idéia nova".

Pastoral Familiar 2008